domingo, 1 de novembro de 2015

GUARDANDO O SANTÍSSIMO

Visitei o orfanato com o mesmo entusiasmo de sempre. Brinquei com as crianças,contei histórias e dei uma passadinha na capela para orar,ainda que rápidamente.
No interior da pequena capelinha encontrei padre Miguel limpando pacientemente os apetrechos sagrados do Santuário do Altíssimo.

- Filha,alguém precisa manter as orações do Santíssimo hoje. Irmã Carmela está de cama muito gripada.Voce se disporia a meditar em oração por meia hora ?

Aflita e pega de surpresa,não consegui dizer que não ( embora estivesse louca para ir embora,tomar um banho e dormir cedo)
Na verdade eu dormira muito mal na noite anterior.

Gaguejei nem que sim nem que não e a minha indecisão foi minha sentença. Padre Miguel estendeu os braços e colocou na minha mão um pequeno livro de oração,para a prática das preces.Em seguida juntou objetos e paninhos de tirar pó,e se retirou da capela deixando-me a sós para o ato devocional,no mais absoluto silencio sagrado.

Meia hora de oração…eu caindo de sono,cansada pra caramba…
Fraquejei na determinação e na fé, ciente de que - quando estivesse sózinha e mergulhada no silencio - cairia em sono profundo nos braços profanos de Morfeu. Mas mesmo assim ajoelhei e  comecei a balbuciar, indecisa ,as preces devocionais.
Nem cinco minutos depois,já me senti incomodada com os joelhos doendo e sentei.Minha cabeça começou a pesar e bambear em cima do pescoço, e eu me entreguei a um cochilo rápido e delirante,com os olhos piscando o tempo todo.
De repente vi minha cama ao lado do Santuário, macia e aconchegante,com almofadas e tudo.
 Perguntei a Deus se era pecado rezar deitada,e antes que ele respondesse,me joguei afoita e cansada sobre a cama,sem me preocupar sequer em tentar entender o que acontecia.Claro que dormi.

Das duas uma : ou Deus exigia minha presença na capela,mesmo que deitada ( e por isso teletransportara minha cama até alí ) ou eu estava sendo tentada pelo demo.

Não sei quanto tempo dormi. Acordei assustada,com o corpo dobrado sobre o banco da igreja,com a boca toda babada e alguém chacoalhando meus ombros. Era irmã Dulce,que antes de dormir fora verificar se  as janelas e vitrais da capela estavam fechados e dar uma última checada nos genuflexórios.

Misericórdia…que vexame.Que mico ! Levantei-me toda torta e cambaleante como um zumbi,e pedindo desculpas para irmã Dulce.Saí da capela confusa e preocupada,questionando em silencio interno,se minha cama ainda estaria no quarto, quando eu chegasse em casa.
Antes de cruzar a porta da pequena capela para a rua,olhei sorrateiramente para trás e fiz uma varredura rápida com os olhos pelo interior do santuário,na esperança de encontrar minha cama amoitada em algum canto, e me convencer de que não estava louca. .

…………………………………………………………………PenhaBosell*i / maat 2015

REVELAÇÃO

Tenho pavor de tuneis,de qualquer tipo ou tamanho.Tuneis longos demais,que não me deixam ver uma luz,uma saída logo a frente me apavoram. Corredores compridos e fechados,sem janelas ( desses que tem em todo hospital ) me despertam sensação de sufoco e desmaio.Minhas pernas ficam moles quando sou obrigada a transitar por corredores hospitalares para visitar alguém da familia.

Aqui em São Paulo, o pavor que os motoristas tem por túneis em dia de chuva,vem reforçar esse meu pânico inexplicável. Nem os túneis mega modernos que atravessam as rochas da serra na descida para o litoral me trazem sensação de segurança.Quando vou para a praia com filhas e netos,em cada túnel desfio uma Ave Maria para o transito fluir e não parar.

De onde vem e por que existe esse medo,esse trauma dentro de mim ?
 Corredores,elevadores,tuneis,me trazem sensação de morte,desmaio,sufoco e pânico. Será que em outras vidas,fui obrigada a transitar por algum corredor antes de morrer ?


Apesar de todo trauma,consegui percorrer um corredor lilás que ( misteriosamente ) apareceu no meu quarto em um domingo a tarde.

Eu descansava do almoço deitada na minha cama,quando um enorme corredor espelhado,de cor lilás,suavemente iluminado,se formou no teto,começando bem acima do meu armário de livros de cabeceira. Era  muito bonito,translúcido e tomava toda a parte superior do quarto.Parecia uma esteira d'água ( um espelho ) tal era a sua transparencia.O azul lilás que emanava desse túnel,se esparramava por todos o móveis,mas de maneira mais acentuada,sobre a minha cama. Sem saber para onde seria levada,senti meu corpo físico levitar até o assoalho do corredor lilás e intuí que deveria caminhar em direção a uma porta que estava bem no final desse túnel celestial.
Não senti medo, pavor ou sensação de sufocamento. Minhas pernas movimentavam-se lentamente e meus passos eram tranquilos. Eu estava calma. Então percebi que na parede lateral (translúcida e transparente do corredor ) existiam janelas sutilmente iluminadas,quase imperceptíveis,que refletiam ( conforme eu ia passando por elas )  imagens de pessoas desconhecidas para mim : uma mulher negra,um rapaz de chapéu e óculos,uma senhora idosa com xale e terço nas mãos,uma jovem dançarina de cabaré,um soldado escrevendo uma carta em campo de batalha,uma camponesa medieval,um minerador preso na mina,uma criança chorando em um quarto escuro,e por último,uma mulher de mãos dadas com uma criança,caminhando em um túnel longo,fechado e sombrio, que conduzia para a câmara da morte silenciosa por asfixia.
Em princípio eu não estava entendendo nada,até que finalmente,quando cheguei no término do túnel,pude ver minha prória imagem refletida na parede translúcida. Então minha ficha caiu. Imediatamente compreendi que o túnel me levara a uma viagem no tempo,e havia me mostrado todos os personagens que eu já havia assumido e vivido em vidas passadas.
A propriedade transmutadora da cor lilás,fez desse túnel,um túnel curador. Quando fiz o caminho de volta,as figuras haviam desaparecido e toda a parede lateral refletia apenas a minha imagem. De repente despenquei em queda suave até minha cama e o túnel desapareceu. 

Depois dessa experiencia,mudei de atitude comigo mesma : passei a me compreender melhor,aceitar minhas limitações sem revolta,e ter paciência comigo mesma. Agora consigo encarar meus medos sem constrangimento,e vivo em permanente estado de gratidão,por tudo que me foi revelado,visto e compreendido, através dessa vivencia transcendental ocorrida dentro do quarto.
………………………………………………………….PenhaBoselli* / maat 2015


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

IPE ROSA

Na época em que os ipês florescem,São Paulo também fica lindo. Nos parques,nas avenidas e ruas,a gente pode ver lindos ipês floridos de maneira tão farta e tão coloridos ( brancos,amarelos,rosas ) que purificam nossos olhos.Colírio para a alma.
 
Em uma tarde quente de verão,estava com minha filha parada no transito,bem em frente um lindo ipê carregado de flores rosas. O semáforo fechou e eu mais que depressa procurei na bolsa minha máquina fotográfica. Misericórdia…tinha tanta coisa dentro da bolsa que não conseguia botar minhas mãos na camera.Procurei desesperadamente,e tudo que conseguia encontrar naquele imenso buraco negro,eram objetos que nada tinham em comum com fotografia : pentes,balas,lenços,caneta,documento,mouse quebrado,livro de oração…comecei a ficar aflita porque intui que o farol ia abrir. Ipes são efemeros,duram pouco. Na próxima semana quando voltasse a passar pelo mesmo lugar,suas flores delicadas já estaria no chão.
Realmente fiquei frustrada. O céu não compactuou para que eu conseguisse a foto da árvore. O semáforo abriu e minha filha teve que movimentar o carro. Fomos embora,o ipê ficou para trás e eu fui durante todo o trajeto, me lamuriando pela oportunidade perdida. Jurei aos céus que ia trocar de bolsa. Quiça uma menor com compartimentos mais organizados.
 
Mas... uma surpresa me aguardava. 

No dia seguinte ao acordar, deparei-me com o mesmo pé de ipê dentro do quarto,os galhos floridos e fartos, ao redor da cama. Lembrei-me de um sonho tido na madrugada anterior,onde anjos vinham do céu e transplantavam a árvore florida no chão do quarto.
Foi o sonho mais angelical e surpreendente que tive na vida. Que presente do céu !

.......................................................PenhaBosell*/Maat 2015